Sozinha mundo afora

Para mulheres que viajam sozinhas

Chapada dos Veadeiros – Cachoeiras Almécegas, São Bento e Vale da Lua

A chapada dos veadeiros é um paraíso de águas. É misticismo. É consciência ambiental. É amizade e companheirismo. É Ajuda e desprendimento.

É daqueles lugares que vale a pena conhecer, por vários motivos. O meu motivo foi a fé.

Cheguei em Alto Paraiso de Goiás, cidade que eu escolhi para ser minha base para conhecer a chapada, as 15h00 de um domingo. Já cheguei pilhada, como boa paulistana que sou, querendo fechar passeio, saber preço, fazer programação. Logo descobri que na chapada dos veadeiros não é assim que banda toca. Não existem operadoras de turismo estruturadas que fazem tudo por você, e se você, como eu, estiver sem carro as coisas complicam bem.

Minha primeira complicação: Escolhi ficar em um hostel – Hostel Cata-vento – bem no dia que todo mundo estava indo embora. Fim de férias, início do ano letivo, início do mês de agosto e todo mundo arrumando mala, no hostel somente eu e a Rita, uma portuguesa queridíssima que me fez companhia no quarto. Ficamos amigas logo, o que facilitou muito as coisas.

Eu toda preocupada sem saber como faria os passeios, ou com quem, ou para onde ir e a Ana Paula, que cuidava do hostel, me pedia calma, dizia para eu “deixar o cristal agir” em mim e parar de me preocupar que tudo daria certo.

Resolvi confiar nela, afinal, era domingo, fim de tarde e não tinha nada que eu pudesse fazer, resolvemos sair para almoçar eu e a Rita, e lá fomos nós conhecer a cidade.

A noite estava linda e coalhada de estrelas, e o programa no hostel era sentar em volta da fogueira e conversar. Aproveitei a noite para exercitar fotografia de estrelas e papear com os últimos hospedes. Fui dormir cedo, meio chateada por não saber se faria algo no dia seguinte, sem mapa e sem planejamento – coisa que estava me tirando dos eixos.

Dia seguinte o Ivan, dono do hostel, me disse que a maioria dos guias estava ou em Brasília, ou descansando da alta temporada ou com o carro já lotado, mas ele continuava procurando um guia disponível para mim. Tomei café bem demorado e fiquei esperando os acontecimentos, dali a pouco ele me disse que tinha um guia, que ficaria o dia todo comigo e me deu duas opções de passeio para o dia, o preço? R$ 120,00 pelo aluguel do carro e R$ 180,00 pelo serviço de guia. R$ 300,00 fiquei arrasada! Mas ele disse que eu poderia rachar o valor com a Rita, mesmo assim achei bem caro para um primeiro dia. Se todos os dias fossem assim eu teria que ir embora antes do tempo por pura falta de dinheiro. Aceitamos esse primeiro passeio:

– Cachoeiras almécegas I e II; Cachoeira São Bento e Vale da Lua, fechando com vista do pôr do sol no jardim de maytrea.

Para quem nada conhece estava ótimo. Arrumei minhas coisas e lá fomos nós três.

Primeira parada: fazenda são bento para comprar ingressos para entrar nas cachoeiras (e você achando que estava incluso nos 300,00 né?) 30,00 para as três atrações, está na chuva é para se molhar, e eu só enfiando a mão no bolso e achando tudo meio estressante.

A fazenda são bento é uma fofura e logo na entrada tem uma capelinha absolutamente linda! Com direito a caminho de bambu e tudo mais. Aproveitei para fotografar e meu humor melhorou um pouco. Dali a pouco estávamos na trilha até almecegas I. Coisa linda de Deus! Tem algo nas cachoeiras que encantam a gente, será que dá para ficar de cara feia depois de pôr os olhos em uma queda d’agua linda e abundante? E aquele barulho então? Sarei na hora! Para melhorar meu humor, o Gilson, o guia, tinha levado um colete salva-vidas! Como eu não sei nadar muito bem foi como amor à primeira vista.

Fiz algumas fotos, contemplei com olhos apaixonados a cachoeira e depois entrei nela (choque inicial de agua geladinha) e cheguei até a queda, deixei a agua cair no meu corpo com uma pequena prece para que a agua levasse com ela todo meu mau humor.

Mais fotos, mais brincadeiras na agua e depois lagartear no sol para aquecer. Quando todos nos demos por satisfeitos seguimos a programação, rumo a almecegas II. Comecei a caminhar e algo tinha mudado, não estava mais de mau humor, estava levinha e feliz, quase como se tudo que me aborrecia alguns minutos atrás tivesse acontecido há mil anos. Nem se quer senti a fadiga da trilha. A cachoeira já estava agindo sem eu me dar conta.

Almecegas II é menor que a primeira e à primeira vista nem impressiona, é como a prima pobre da primeira, mas só à primeira vista. Passeando por ela já se percebe seu charme e beleza e entrar nela é igualmente delicioso. Fotos, contemplação, flutuação na agua (nem posso dizer que nadei né? Não sei nadar), rumo a última cachoeira, São Bento.

Se almecegas II eu achei sem gracinha à primeira vista, São bento eu achei um desperdício de tempo. Pequenina, sem gracinha, por mim nem teria parado lá, mas como ela tinha um poço largo para nadar e estava vazia, pensei “por que não? ” Vesti o colete e me joguei nas aguas geladas pela terceira vez. Aqui a segunda surpresa do dia.

Se almecegas I tinha levado meu mau humor, almecegas II, equilibrado meu sistema nervoso, foi na cachoeira São bento que o milagre se fez.

Entrei nela sem pretensão alguma, só para flutuar mesmo, nadei até o meio do poço e, como as aguas estavam escuras e muito frias, fiquei com medo de ir até a queda d’agua e depois não conseguir voltar de tanto frio. Mas quando eu cheguei no meio do poço, resolvi boiar e deixar as aguas me levarem para onde quisessem. Cara! O que foi aquilo!? De repente todos os barulhos ao redor desapareceram, eu só ouvia a agua, tranquila, levinha, ritmada… e uma paz tomou conta de mim como se eu estivesse no colo de uma mãe amorosa. A agua não estava mais tão fria, estava envolvente, incrível mesmo. Me deixei ficar sentindo aquele carinho, e era assim que eu me sentia, acariciada pelas aguas, embalada pela sua canção doce e tranquilizadora. Quando fiquei satisfeita abri os olhos. O sol banhava bem o meio do poço, e eu olhei para o fundo, os raios do sol furavam a agua e atingiam o fundo formando um caleidoscópio inacreditavelmente lindo! Os peixinhos passeavam pelo caleidoscópio e tudo estava perfeito! Não sei quanto tempo fiquei assim, mas imagino que foi pouco, qualquer coisa entre 10 e 20 minutos, mas foi suficiente para a agua fazer sua mágica em mim. Eu já era outra, sem os sinais do stress da manhã. Sai da agua e agradeci à cachoeira pelo bem que ela estava me fazendo. E no fim das contas, a cachoeira que eu não dava nada por ela, foi a que eu mais gostei no dia todo!

Hora de esquentar lagarteando nas pedras, brincar de jogar salgadinho para os peixes e seguir o rumo. Quase hora do almoço, o Gilson os sugeriu almoçar no rancho do Sr. Waldomiro, para comer matula e tomar licores feitos por ele com sabores típicos do serrado, quem resiste? Aceitamos a sugestão e fomos para o rancho.

O rancho fica ne estrada que leva à cidade de São Jorge, depois do morro da baleia e vale muito a pena parar lá. Os licores são coisa de louco! E você pode experimentar todos e até levar para casa por 20,00 a garrafa de 1 litro. Experimentei vários, pedi o prato de matula (um misturado de feijão com várias carnes, arroz, mandioca frita, farofa e abobora refogada, super light rs) e comemos sem pressa conversando e apreciando o lugar.

Depois do almoço, vale da lua. Um vale de formação rochosa estranhíssima, toda bem explicada nos cartazes da entrada que ninguém presta atenção porque vamos combinar, a lugar impressiona.

As aguas e o vento foram esculpindo as rochas formando curvas suaves e lindas. É lindo e meio assustador, mas é bonito ver o trabalho que a agua está fazendo por lá, dá para ficar horas caminhando encima das pedras, seguindo o barulho da agua, percebendo suas esculturas… uma vez li uma frase que dizia:

“Não foi o martelo que deixou perfeitas essas pedras, mas a agua, com sua doçura, sua dança e sua canção. Onde a dureza só faz destruir, a suavidade consegue esculpir”

Essa frase é totalmente verdade no vale da lua.

Depois do vale da lua, jardim de maytrea para ver o sol se por. E ele não decepcionou! Foi embora magistralmente, nos presenteando com fotos incríveis.

Final do primeiro dia, eu já me sentia leve e feliz, o dia valeu demais, as águas conseguiram esculpir em mim um humor melhor, tirou a ansiedade de querer organizar todo meu dia e planejar todos os meus passos – isso definitivamente não funciona na chapada dos veadeiros.

Voltemos para o hostel com a noite firmada. Tomei um banho de chuveiro bem quentinho de demorado, deitei para ler um livro e dali a pouco estava caindo de sono. Dormi o sono melhor da vida, sem preocupação alguma. Dia seguinte? Vai saber! Alguma coisa aconteceria de bom, com certeza.

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