Sozinha mundo afora

Para mulheres que viajam sozinhas

A mágica da Ilha de Páscoa

Escolhi a ilha de páscoa como meu destino de viagem por conta de toda aquela aura de mistério que envolve a ilha. Tinham-me dito que era o lugar mais mágico do planeta, que concentrava magia antiga e não mais acessível a nós, reles mortais desvirtuosos.
Disseram-me que “o umbigo do mundo” concentrava a energia geral do universo e tocar aquela pedra, liberava toda a energia para você. Imagina só o tamanho das minhas expectativas!
Achei que já do avião eu sentiria energias nunca antes sentidas e entenderia o segredo da vida, o universo e tudo mais, de uma tacada só.
Qual não foi minha decepção ao perceber que não dava para notar energia nenhuma.
Logo ao chegar peguei um taxi cujo taxista já foi mostrando tabelas e rotas com preços astronômicos para fazer passeios pela ilha.
No hostel, era um tal de todo mundo querendo alugar carro, sair vendo moais e tirando foto, como se fosse uma caça ao tesouro.
Mas, sutilmente, a mágica ia se impondo, mesmo não sendo do jeito todo espalhafatoso que eu imaginei. Mesmo não descobrindo o segredo da vida, o universo e tudo mais, a mágica já fazia-se presente, sem que eu me desse conta.
Pequenas surpresinhas faziam o dia valer a pena e aconteciam das formas mais espontâneas, mas eu nem notava porque estava procurando “a grande mágica” aquela que iria mudar minha vida para sempre. Não disse nada para ninguém, mas estava meio decepcionada por não achá-la.

Uma manhã, fui ver o nascer do sol em Tangariki, que era meio que passeio obrigatório, todo mundo queria ver o nascer do sol lá. O taxista, que já tinha virado meu amigo a essas alturas, me levou até lá antes do sol nascer para, com sorte e muita reza para santa clara, o sol se pronunciaria e nos brindaria com uma bela imagem de aparecer por trás dos moais mais belos e a plataforma mais extensa da ilha.
No caminho o taxista viu um rapaz andando sozinho e ofereceu para leva-lo, depois de uma discussão de uns 15 minutos sobre o preço que ele cobraria do rapaz, fomos os três para Tangariki. Ao chegar, já haviam varias pessoas sentadas nos gramados, esperando. E havia esse rapa nui, um rapaz de devia ser o vigia do lugar, que assegurava que ninguém subisse na plataforma sagrada ou fizesse algo proibido.
Puxei assunto com ele perguntando se ele era rapa nui.
– Sou sim! por que? Você tem algo contra os rapa nui?
– Não! – eu respondi – É que eu ainda não tive a oportunidade de conhecer nenhum rapa nui.
– Pois acabou de conhecer. Eu sou rapa nui e esses são meus ancestrais – disse, apontando para os moais.
Começamos uma conversa divertidíssima, eu falando portunhol e ele respondendo num espanhol bem devagar e cheio de mímicas para que eu entendesse.
Ele me contou historias da ilha, me contou que os moais são um grande computador para quem sabia como lê-los e me explicou que, olhando uma plataforma (Ahu) podia-se saber como estava a maré, quais peixes tinham naquela área e qual a profundidade do mar, onde o sol nascia e se punha e a posição das estrelas. Nunca vou saber se isso é verdade, mas uma boa historia não precisa de fundamento cientifico. Conversar com ele era uma delícia. Ele também me contou que atrás da plataforma de moais, tinha uma menor de moais femininos, que não tinha sido restaurada e estava bem deteriorada pela ação do tempo e do clima. Me despedi dele e fui dar uma volta. Atrás da plataforma ninguém vai, porque o grande show está na frente, todo mundo sentado no gramado esperando o sol para fotografar. Enquanto isso não acontecia, fui passear por trás da plataforma. Percebi que vários passarinhos faziam ninho nas pedras da plataforma, vi que o mar estava simplesmente fantástico e vi a plataforma minúscula dos moais femininos.
E aí aconteceu algo que eu não esperava.
Eu fui simplesmente arrebatada por aqueles moais. Foi só botar os olhos nelas para sentir um amor tão grande que nasceu dentro do meu peito e tomou conta de mim todinha.
Cumprimentei-as falando “Iorana, grande mães” e alguma coisa dentro de mim sentiu uma mudança. De repente eu não via mais um bando de pedras empilhadas com uma leve noção de formas humanas. Eu via olhos ternos e carinhosos, sorriso amoroso e amor. Eu não conseguia mais sair de lá. Eu tinha vontade de entrar no cercadinho e me aconchegar no colinho delas, as vovozinhas. Tentei fugir daquela sensação magnética e dei uma voltinha, mas logo estava de volta. Por uma estranha razão eu queria sentir mais daquilo. Foi uma sensação muito forte, um sentimento maternal e puro. Incrível.
Fiquei nesse arrebatamento e alheamento do mundo por um tempão. Até que me dei por satisfeita e voltei para a frente da plataforma. Encontrei de novo o Rapa Nui vigia e contei a ele que adorei as vovós, e perguntei sobre a estrutura do lugar. Ele me contou que os escritos (criptografia) esculpidos nas pedras contavam toda a historia daquele lugar que no passado havia sido uma vila muito importante. Eu brinquei pedindo para ele me contar essas historias e ele me contou uma sobre o Ariki (rei) cuja esposa não podia ter filhos, o que deixava toda a vila triste inclusive a rainha. Para resolver o problema o ariki chamou os doutores todos e eles disseram que deveria fazer uma inseminação artificial na rainha… O resto da historia não vou contar, mas se quiserem sabe-la procurem o Moa, em tangariki, tenho certeza que ele vai adorar contar essa e outras muitas historias.
Agradeci a ele pela linda historia, e ele me disse que a ilha sempre foi governada pelo amor, que era a base da cultura deles. Depois do que eu senti com as queridas vovozinhas, eu acreditei plenamente nele.
Depois dessa experiência em tangariki, eu senti varias outras, perto dos moais, bastava eu ficar lá perto deles um pouco e começava a sentir algo, sensações, algumas eram tristes, outras mais tranquilas, mas estavam lá, alguma energia. No museu descobri que essa energia chama “Mana”.

Cheguei na ilha imaginando que eu ia encontrar a grande mágica que era a chave para entender o universo, mas descobri que a verdadeira mágica estava em pequenos detalhes, pequenas historias desse povo bonito, carinhoso e acolhedor. E de alguma forma que eu ainda não entendi, a energia da ilha nos transforma, de uma forma bem sutil, mas (desconfio) irreversível.

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Moai feminino em Tangariki

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Publicado às 16 de junho de 2013 por em Ilha de Pascoa - Chile e marcado , , , , .
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