Sozinha mundo afora

Para mulheres que viajam sozinhas

Aventuras em Manaus

E lá fui eu, rumo ao Monte Roraima, na minha mais maluca aventura. Para chegar, comprei passagem de avião de Sampa para Brasilia e de lá para Boa vista. Logo de cara meu primeiro contratempo: O voo da Gol para Brasilia atrasou para entregar minha mala e quando eu finalmente consegui pegar, corri para fazer check in na Tam e já não dava mais tempo, tinha perdido o voo.

Fiquei desesperada, a moça que organizava o check in me mandou para o setor de troca de passagens na loja da Tam, a vendedora olhou o terminal e me deu a terrível noticia: para trocar a passagem teria que desembolsar R$ 1.600,00!

Quase infartei! Vi toda minha viagem que fiquei meses planejando ir por água abaixo. Tentei comprar passagem por outra companhia aérea que tinha no aeroporto de Brasilia e nada. Depois de rodar sem rumo pelo aeroporto,tive a idéia de ir reclamar na Anac. O atendente escutou minha conversa desesperada e desolada e ficou com pena de mim, mas disse que não existia nada que se podia fazer, o maximo que dava era eu depois que voltasse para casa, entrar com uma ação contra a Gol, mas isso não ia fazer eu viajar a tempo e assim, perderia toda minha programação (e demais passagens) de qualquer forma.

Acho que minha cara estava mesmo desolada porque ele me deu um ultimo conselho, para eu falar com o encarregado de embarque da Tam, e explicar minha história. Eu achei que não ia adiantar nada, mas como estava no limite do desespero, tentei.

Pedi para falar com o tal encarregado de embarque, expliquei toda a situação, quase chorando, mostrei a ele todo meu itinerário, expliquei que ia perder a expedição ao Monte Roraima e toda minha programação depois disso e expliquei que não tinha como pagar 1.600,00 por outra passagem. Disse que sabia que tinha um voo para Manaus, e se ele me pusesse nesse voo eu me virava de lá até Boa vista. E rezei.

Ele olhou para mim, para todos os meus papeis, para meu mochilão pesado.. pensou e disse:

– Me dá seu RG.

Digitou e digitou na tela do computador e fez meu check in, e fez mais! Me encaixou no voo que ia até boa vista, mas ele só sairia 1h45 da manhã.

Quase caí de joelhos diante dele, tamanho meu alívio. Nunca mais vou esquecer esse anjo lindo que apareceu no meu caminho, ele vai estar sempre nas minhas orações, sinceramente.

Cheguei em Manaus meio dia e não tinha nada para fazer até as 1h45 da madrugada. Resolvi pegar um taxi e ir até o centro conhecer a cidade e ficar num hotel, pelo menos teria onde guardar minhas coisas e passear para matar o tempo.

Manaus é quente! Mas assim: QUEN-TE! É quase como caminhar numa cratera de vulcão em atividade. Tomei um banho e fui procurar lugar para almoçar, depois fui conhecer o teatro mais famoso, no teatro fiquei sabendo que tinha um porto ali perto, achei que valia o passeio, para tirar algumas fotos dos barcos e algo assim, cheguei no porto e o rapaz me ofereceu um passeio para conhecer o encontro das águas, expliquei que não tinha tempo, que deveria voltar para o aeroporto naquele mesmo dia, mas ele insistiu e tanto insistiu, que conseguiu para mim um passeio exclusivo assim seria no horário que cabia no meu cronograma, fui vencida, e entrei no barco.

Quando alguém fala para mim que o passeio é num barco pelo rio, já imagino algo calmo e tranquilo, para apreciar as margens e quem sabe ver algum animal feroz como uma onça ou um jacaré. Não foi nada disso que eu encontrei. O Rio negro é uma extensão de água tão grande que nem se ve as margens, e tem ondas! Parece que se está navegando no mar. O barquinho pulava na água e me apavorava! Expliquei ao marinheiro que tinha medo e ele riu e foi mais devagar, eu agarradinha na borda do barco e ele morrendo de rir.

No passeio, fomos fazendo amizade eu e o marinheiro, seu nome era Vilson, Capitão Vilson. Ele é meio índio meio “homem branco”, me contou que seu pai, um índio (esqueci a etinia agora) capturou (digamos assim) a mãe dele quando ela tinha 13 anos e a levou para morar com ele, com 14 ela teve o primeiro filho, e foram 21 depois desse. Ele morou na selva durante 20 anos e, segundo me disse, matou com as próprias mãos cinco onças “num tempo que se matava onça para vender o couro” segundo ele me disse. Também tinha sido seringueiro, num tempo que a extração de borracha não era proibida, aí foram proibindo tudo e ele se mudou para a cidade para ganhar a vida. Ele era mais divertido que as margens do rio Negro (quer dizer, nem vi a margem) e depois o rio negro se encontra com o rio Solimões e a paisagem muda toda, é algo realmente impressionante.

E da-lhe conversa com o Capitão Vilson.

Paramos uma casinha ribeirinha onde pude ter contato com cobra jacaré e a preguiça mais fofinha e meiguinha que eu já vi (tudo bem, foi a primeira que eu já vi) fiquei até com vontade de ter uma preguiça só minha, mas como ela cresce absurdamente, deixei prá lá.

Depois o capitão me levou até uma plantação de vitorias-regia (ou seriam vitória-régias?) e eu comentei que existe uma lenda sobre as vitorias-regias que eu não lembrava qual era, foi aí o Sr. Vilson mandou:

– Lendas são bobagens, eu não acredito em lendas, tudo besteira!

– É… – disse eu – é igual aquela historia do boto que vira homem e encanta as mulheres…

O Capitão ficou sério, olhou bem nos meus olhos e disse:

– Mas isso não é lenda!

E me contou a historia do tio dele que um dia caiu num poço e desapareceu, ninguém encontrou nem vestígio dele, mesmo procurando por semanas o corpo não apareceu. A família recorreu ao pajé e ele, depois de fazer as rezas dele, disse que o tio do capitão havia sido encantado boto. E também me contou que as irmãs dele, algumas noites, ficavam doidas, encantadas pelo boto, querendo de qualquer jeito ir para a beira do rio.

Boto por aqui é coisa séria! Olhei para ele acreditando em tudo e ele pareceu ficar satisfeito, depois mudamos para o assunto de como ele matou a onça a pauladas e da vez que ele enfrentou um jacaré adulto sozinho! O Sr. Vilson era uma figura! Adorei ele! Teria ficado o dia todo e a noite inteira ouvindo suas historias incríveis e valentes.

Ele me convidou para voltar para ver os igarapés e eu prometi voltar para ver os tais igarapés. Quem sabe…

Voltamos para o porto com o sol se pondo e o capitão Vilson contando historias… também fiquei sabendo que ele era casado com uma mocinha 35 anos mais moça que ele, e ele me contou isso rindo prazeroso. Era impossível ficar brava com ele, sério!!

Se um dia vocês forem para Manaus, façam o passeio de barco com o capitão Vilson, um senhor super gente boa, atencioso e contador de causos que faz a viagem ficar muito mais divertida.

O email dele é Vilson.fabio@gmail.com

Depois disso voltei feliz e levinha pro hotel, até esquecida do stress do inicio da jornada. As 1h45 da madrugada estava no voo com destino à Boa Vista e a minha expedição ao Monte Roraima.

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Olha o Capitão Vilson aí!!

Um comentário em “Aventuras em Manaus

  1. Marcos
    27 de janeiro de 2014

    Nilda,
    Consegui sentir todo seu desespero inicial para embarcar, realmente existem anjos em nossas vidas.
    Quanto a viagem com o Cap. Vilson, faltou dizer quanto custou o passeio 🙂
    Apesar dos contratempos o primeiro dia foi sensacional. Não vejo a hora de ler os demais dias.
    Beijos

    Curtir

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Publicado às 4 de janeiro de 2014 por em Monte Roraima e marcado , , , .
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